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postado 05.08.2013 às 15:00 por Portal CR
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Coração de pai

Coração de pai Coração de pai
 
Quando se tem filhos, é natural falar deles aos quatro ventos. O jornalista José Ruy Gandra fez melhor – escreveu um livro para mostrar o quanto essa relação pode ser deliciosamente doce e um tantinho amarga também, como tudo na vida
 
Por Maria Helena Bellini
 
Escrever é o ofício deste homem que a princípio passa a impressão de ser sério, muito sério. Mas ao primeiro “olá” você já percebe o sorriso e o brilho no olhar. Jornalista dos mais conceituados, José Ruy Gandra é um profissional das letras. Por ter um jeito todo especial com as palavras, escreveu crônicas sobre sua vida com seus dois filhos em duas das mais conceituadas revistas brasileiras – a VIP e a Crescer.

Certo dia, um amigo perguntou se ele não tinha vontade de publicá-las – já pensou vê-las todas juntas em um livro? “O tema sempre foi a relação pais e filhos e já tinha mais de 100 crônicas prontas. Resolvi arriscar nesse projeto que foi tomando forma aos poucos. Escolhi 20 e escrevi mais 25 textos inéditos, e assim nasceu a primeira edição de Coração de pai. Foi o desfecho feliz e encadernado da minha busca de reaproximação entre Paulo e Pedro. Me estarrecia a ideia de que, mais adiante, meus dois filhos não se vissem como irmãos. Que mantivessem uma relação distante, restrita a e-mails sonolentos e burocráticos em Natais ou aniversários. Felizmente, como digo num capítulo mais adiante, ‘eles deram liga’. Passaram a tratar-se como irmãos que, de fato, são”, conta.

O livro vendeu mais que pão quentinho na padaria. José Ruy estava numa felicidade só por ver os olhares carinhosos nas expressões de Paulo, que Pedro prontamente adotava. Nos sorrisos ternos que passaram a trocar. “Sempre acalentei uma grande esperança de que, um dia, Paulo pudesse guiar Pedro por esses nossos tempos tão implacáveis e mesquinhos”, diz.
De repente, em um momento que o escritor chamou de “uma única patada do destino” todas essas esperanças foram atiradas ao vento. “A morte de Paulo pôs abaixo esse e muitos outros castelos com que sonhávamos todos nós. Gerou uma teia de tristezas. Cada qual com seu projeto desfeito procurou formas de mitigar o sofrimento, aceitar o fato e elaborar melhor o papel dessa perda em sua própria vida. A minha maneira sempre foi escrevendo. Foi o que fiz. Escrevi sobre a perda súbita de Paulo. Meu primogênito. Eu precisava fazer isso. Por mim. Por ele. Em nome da vida”.

José Ruy havia escrito um livro sobre “a arte de criar filhos”, em que relatava suas experiências com Paulo e Pedro ao longo de quase 30 anos, a maioria delas felizes. “Não poderia me furtar a refletir sobre uma experiência tão triste. Sobre a minha ‘dor sem remédio’. Por mais dolorosa que seja, a morte de um filho traz também lições duramente luminosas. Meus leitores mereciam isso”, relata emocionado.

A segunda edição de Coração de pai fala sobre a grandiosidade do amor e também do sentido da vida. A superação da perda do seu ponto de vista sem deixar que sua dor atroz amargasse as palavras. Afinal, seu neto Rodrigo, filho de Paulo, um bebê, estava ali, como ele mesmo disse: “Para me salvar. Ele é meu bálsamo”.

Permitir que Rodrigo soubesse um pouco mais sobre o pai que não lhe foi dado conhecer. “Queria contar sobre a imensa rede de amor e carinho que se teceu à sua volta". Esse relato ao neto se transformou na missão desse escritor.

O livro aborda de modo muito positivo as questões que envolvem esse momento tão delicado. “Traz mensagens repletas de esperança. Como a de que mesmo um episódio tão traumático pode nos fortalecer. Ou, ainda mais importante, a de que, por maior que seja a tristeza, a vida deve prosseguir. Quem não está para morrer está para viver”, filosofa.

Um livro altamente recomendado para pais, mães, filhos, avôs e avós, tios e tias... Um livro para rir e chorar, para se emocionar e reler sempre! Um livro para você ter sempre a mão, para contar histórias para as crianças e para recorrer a ele nos dias mais nublados. Um livro para os dias de sol e chuva!

Um livro que vai se tornar seu amigo para toda a vida!
 
UM PRESENTE PARA OS LEITORES DO PORTAL
 
O jornalista e escritor José Ruy Gandra generosamente disponibilizou um capítulo do seu livro, “Coração de pai”, especialmente para os nossos leitores.

Boa leitura!
 
Um duro adeus

As separações costumam se parecer com a morte
 
José Ruy Gandra
 
Não chorei quando, após pouco mais de um ano juntos, crepitando na cama e nos estranhando em quase tudo fora dela, decidimos nos separar. Não nessa hora. Éramos, então, jovens e tolos demais para achar que um passo tão banal nos nocautearia. Por isso, presumo, aquele adeus nos pareceu tão simples e óbvio. Num sábado, após o café da manhã, estava tudo acertado. Negligentemente. Como quem apaga o derradeiro cigarro de um dia. Na segunda-feira bem cedo o carro desceu de ré a ladeira da vilinha paulistana em que vivíamos. Ao volante, ela, seus cachos ruivos e rosto de menina, em cujos olhos pude ver, de relance, uma lágrima deslizando pela face. No banco de trás, alheio a tudo em sua cadeirinha, um bebê. Paulo. Nosso filho. Ao vê-los partir, pressenti turbulências. Mas eu estava exausto. Tomei um calmante e voltei a dormir. Voltei a dormir, a comer bobagens, a beber até tarde, a juntar louça suja na pia e a vagar sem muito norte pelas noites e dias. A alegria duvidosa dos solteiros. Mas ficara um buraco. Cadê o meu menino? Uma estranha amargura roubava-me, a cada manhã, um pouquinho de ar. Um dia me asfixiou. Pouco antes da Páscoa, a mãe de Paulo me ligou, dizendo que passariam o feriado na praia. A notícia me pegou de jeito. Meu primogênito veria o mar pela primeira vez e eu não estaria ali, para ajudá-lo a olhar. Meu menino, as ondas, baldinhos de plástico, esteiras e guarda-sóis na areia… A foto perfeita – e eu fora dela. Era o primeiro vagalhão do meu tsunami interior.

Por um bom tempo, comi o pão que o diabo amassou.

É assustador como uma separação pode se parecer com a morte. Quando se tem filhos, essa sensação de perda se acentua. Em seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o escritor José Saramago fala de uma tal “dor sem remédio”. Deve ser essa. Alguém morrera. Provavelmente o menino dentro de mim que, no fundo, sonhava ter uma família duradoura e feliz.

Duvido que meu casamento tivesse resistido. Mas me arrependo até hoje de ter tratado seu desfecho com desdém. Não dei ouvidos ao menino que pedia que eu lutasse mais. Como sofria com seu chorinho, sufoquei-o para abreviar minha aflição. Um comportamento tolo e pueril – que, à época, eu simplesmente não conseguia enxergar. Só depois, com as lições maravilhosamente simples que o tempo nos dá. Como esta: filhos são sagrados!

Graças a esse mesmo tempo, aquietei. E a vida acabou me brindando com um segundo casamento cuja doçura pretendo desfrutar pelo resto de meus dias. Paulo também sofreu. Bastante! Mas conseguiu sobreviver relativamente incólume aos fatos. Em suma: a vida foi em frente. Até hoje, porém, trago na alma uma pequena cicatriz. Aquele carro descendo a ladeira ainda dói. Ainda me pergunto o que ela, por detrás daquela lágrima, e ele, o pequenino, alheio a tudo em sua pureza, esperavam que fizesse aquele rapaz. Eu que, minutos depois, tomaria um calmante. E voltaria a dormir.
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